Semblante
By: Gabriela Bara
Prólogo
Eu dei um passo a frente. Charlie tentava parecer sério e mostrar o quanto estava descontente com a situação, mas eu conseguia enxergar ao menos uma pontinha de felicidade em seus olhos. Alice e Jasper estavam ainda mais próximos do juiz de paz, assinando o resto dos papéis.
Edward... Ele sorria o tempo todo, observando todos os cantos do espaço onde estávamos, todos os rostos. Sua sempre presente máscara de sobriedade já não era tão eficiente, dava pra ver o nervosismo em sua expressão. Não me cabia no peito a sensação de estar fazendo-o feliz.
Casamento civil. Em nenhum dia, desde que um anel cravejado de diamantes foi colocado em meus dedos, há quase um mês e meio, passou-me pela cabeça qualquer outra cerimônia que não fosse a mesma da qual eu ouvia Alice falar todos os dias, envolvendo um vestido branco pesando uma tonelada, flores, padre e afins.
E não é a toa que casamento religioso é chamado “cerimônia”; foi ali a mudança verdadeira, quando até um nome passou de “meu” para “nosso”.
- Bem vinda à família, Isabella Marie Cullen.
Capítulo I
Até então, todos estávamos em um salão muito grande, com chão de mármore posicionado como um tabuleiro de xadrez. Era frio lá dentro, mas enquanto eu segurava a mão gélida de Edward, isto não me incomodava; com o tempo, a temperatura baixa passou a ser confortável para mim.
Eu agora estava em um outro salão, de tamanho proporcional ao anterior, decorado com dourado, e iluminado por meia dúzia de enormes candelabros, estrategicamente posicionados no teto, carregados com velas acesas de todos os tamanhos. O chão espelhado completava o conjunto, fazendo-me lembrar de cenas de bailes de gala em filmes clássicos ao olhar em volta.
Estávamos somente eu e Edward ali; só nós dois, parados no centro daquela grande sala. Ele se aproximou e me envolveu em seus braços congelados. Minha cabeça repousou em seu peito duro; meus ouvidos ainda esperavam por ouvir as batidas de seu coração morto, e talvez por isso minha imaginação se encarregava por criar o som, o coração que só eu podia ouvir.
Meu rosto se virou aos olhos que me olhavam; já não eram dois topázios brilhantes, mas pareciam líquidos, compostos espelhados. As íris, então de cor púrpura tão profunda, tornavam-se de um negro apocalíptico a cada expressão que se passava nos olhos que pertenciam. Eu sabia lê-los, e “deslumbrar” era tudo o que eu conhecia, capaz de descrever o efeito que me causavam.
- Meu marido. – eu disse em tom baixo.
Edward sorriu torto, conseguindo ser ainda mais fascinante, afastando-se e curvando-se à minha frente, enquanto uma música lenta vinda de algum lugar começava a soar pelo salão.
- “Marido” não me parece agradável. – ele riu, puxando delicadamente minha mão e tocando-a com os lábios – Concede-me esta dança?
Eu segurei sua mão, e ele então envolveu minha cintura, começando a me guiar ao ritmo da música. Eu havia melhorando bastante minhas habilidades no quesito dança...
- Hoje é vinte de junho de dois mil de oito – ele sussurrou
- Sim...
Edward tinha o olhar distante, parecendo “estar” em outro lugar. Ele permaneceu calado, inerte por alguns segundos, e então voltou a respirar, expirando longamente.
- Hoje é meu aniversário, Bella.
Eu levei a mão à boca, num impulso. Meus lábios se moviam na tentativa de dizer algo, mas nada me vinha em mente.
- Não, Bella... Não se culpe por não ter recordado. Eu sei... É realmente estranho comemorar o aniversário de alguém que já não completa anos.
- Oh meu Deus, Edward! – eu finalmente saí de meu “transe” interno, e joguei meus braços em torno de seu pescoço – Desculpe-me! Desculpe!
Ele passou a mão em meus cabelos.
- Não se desculpe, minha querida... – ele me guiava para fora do lugar, onde o sol poente ainda aquecia, por mais que precariamente, a atmosfera. O Volvo prateado estava estacionado próximo a um chafariz, refletindo o pouco de luz solar que iluminava o fim do dia. Nós estávamos em frente a uma casa imensa, e eu estava um pouco receosa em relação ao seu significado – Mesmo sem saber da data, você me deu todos os presentes que eu poderia querer.
Eu não saberia descrever o que estava sentindo. Qualquer emoção me parecia banal demais para resumir o misto de felicidade infundada, talvez vergonha, e o torpor que tomava conta de meu corpo, minha alma, minha mente, meu senso de certo e errado.
Edward sentou no degrau mais elevado da escada que levava à entrada da casa, e me puxou para si, abraçando-me contra sua pele fria.
- Bella, você é o meu presente. Você e todas as suas ações, suas atitudes, impensadas ou não. Seu jeito estabanado, seu sorriso, seus olhos, sua pele. Por muito tempo eu me conformei com o mostro que sou, com o futuro que está destinado à mim, como vampiro. E então você apareceu... Você despertou a minha fera, mas também soube fazê-la adormecer. Tudo o que sinto por você fez com que a minha sobra humana, que até então só funcionava como uma esperança em meus pensamentos, tornasse-se maior do que aquilo que realmente sou. Você é muito mais que aquilo que um dia eu defini como amor; mais do que o garoto de dezessete anos esperava, e mais do que o vampiro quase centenário e desiludido poderia querer – sua voz era baixa. Ele observava o crepúsculo enquanto falava, e brincava com a pequena pedra lapidada em forma de coração que ele mesmo havia pendurado em minha pulseira. – Sua presença fez-me homem, Bella; fez com que eu não mais me sentisse o adolescente que aparento ser, mas perceber estes meus cento e sete anos de vitórias, derrotas, decepções e indiferença, e apoderar-me no mínimo moralmente deles. E hoje...
Ele parou. Meus olhos estavam marejados, meu coração apertado. Edward tornou seu rosto para mim e sorriu lindamente, em seu choro sem lágrimas que tornava sua expressão cativante, com a graça e a sinceridade que só se encontra em riso de criança.
- Hoje você me deu aquilo que eu esperei, noventa anos atrás. – eu fiquei confusa – Eu me casei, sem precisar de uma autorização, sem ter realmente que prestar alguma satisfação à alguém... Eu sei que isso parece infantil, mas... É tão importante pra mim, Bella... Você me deu a maioridade; fez-me usufruir dela verdadeiramente, não só como a conseqüência de morar tempo demais em um mesmo lugar. Meu amor... Você já completou tantas lacunas vazias dentro de mim... Você sabe que canta pra mim, Bella, mas acima disso... Você me completa, e sem você eu não sou nem metade do que um dia quis ser.
Toquei uma lágrima que escorria por minha face e encostei o dedo úmido no canto do olho de Edward. Talvez só eu entendesse o que isso significou para mim, mas não vinha ao caso. Aconcheguei-me no abraço que ele me envolvia e beijei seu rosto, e a onda elétrica que passou por meu corpo, causado pelo choque térmico entre nossas temperaturas, nunca foi tão confortável.
O coração que eu imaginava para Edward começou a bater freneticamente, talvez refletindo o sorriso imenso que agora se mostrava em seu rosto.
- Feliz aniversário.
FIM