Humanidade Infalível
By: Isabela Rossi



Era domingo. Charlie estava relaxado em sua poltrona, mergulhado num silêncio despreocupado assistindo Faustão, fazendo com que sua voz grossa ecoasse por todos os cantos da casa.
Edward fora caçar com Alice e Jasper, me garantindo que iria voltar em quatro horas. Para meu completo desespero, haviam se passado vinte minutos.
Eu estava no meu quarto, fazendo rapidamente a tarefa de Matemática, infiltrada num dilema íntimo: eu não tinha paciência nenhuma para me concentrar e fazer a lição direito, mas se eu terminasse rápido, eu não tinha porcaria nenhuma pra fazer. Decidi por terminar rapidamente. A voz do Faustão tinha se cessado (Deus é pai), e o crepúsculo estava lindo: nos mais diferentes tons de rosa, mesclados delicadamente com o laranja.
A campainha tocou, me sobressaltando: não importava se era o Bin Laden, ou o Jared Leto, eu só queria que uma pessoa entrasse por aquela porta – ou pela janela, ou pelo ralo do banheiro; não importava. – eu queria o meu Edward.
- HOHOHOHO – Ouvi a risada de Charlie. – conclusão: nem ferrando era o Edward.
- Charlie! Eu estava na casa dos Clearwater, te trouxe o peixe caseiro que o Harry mandou! – disse uma familiar voz rouca.
NÃO! Não! N-Ã-O! Santo Deus! Como é que eles conseguem comer tanto peixe?
Fechei meu livro com um baque pesado, o joguei em cima da cama e dei uma olhada no espelho; vendo se eu estava apresentável. Comecei a descer as escadas lentamente, já batendo o olhar em Billy Black. Ele estava como sempre, feliz da vida
por estar vendo Charlie, preocupado por ver a mim. Ou feliz por me ver viva - ainda.
- Bella! – ele me cumprimentou, virando-se em minha direção, enquanto eu atravessava a sala para dar um beijo em seu rosto, encontrando o já esperado olhar preocupado. Eu sorri para ele, como quem diz “oi-estou-tipo-mais-feliz-impossível.”
- Bells, você pode guardar isso na geladeira? – desviei meus olhos para o maldito peixe, embrulhado em uma sacolinha do Carrefour.
- Claro, pai. – sorri timidamente. Eles ainda estavam conversando animadamente enquanto eu abria a geladeira. Estava quase vazia.
Eu teria que ir a Seattle na quarta, se eu não quisesse viver de miojo. Talvez Edward pudesse ir comigo, se o tempo estiver ruim. Era estranho pensar assim. Reprimi um riso. Imaginei Edward no mercado: quantas funcionárias de patins cairiam ao passar por ele? Dessa vez foi de mais para mim: soltei uma gargalhada ruidosa.
Charlie me perguntou o que tinha acontecido, e eu rapidamente mudei de assunto, para que a cara dele não me forçasse a gargalhar mais ainda.
Jantamos em um clima agradável. Talvez eu tivesse comido rápido demais, eu estava sedenta por um banho. Me despedi de Billy e subi para o banheiro. Sequei meu cabelo, escovei meus dentes e fui para o meu quarto. Esperar.
Estava me sentindo meio enjoada, mas como isso era constante, resolvi ignorar. Talvez fosse a ansiedade de ver Edward. Ainda mais hoje, no seu aniversário. No dia em que nasceu a razão da minha existência.
Vinte minutos. Era o que faltava. Peguei meu dever de matemática e terminei os últimos exercícios.
Até pensei em dar algum presente para ele, mas que presente nesse mundo seria a altura dele? Não consegui pensar em nada, e acabei por dar o livro “a menina que roubava livros”, que eu tinha lido no verão anterior. Olhei para o coração reluzente que pendia no meu pulso. A pulseira que ele me dera. Suspirei. Eu nunca conseguiria ser tudo o que ele merecia, por mais que ele jure constantemente que eu sou mais do que ele jamais sonhara.
Ouvi um baque na minha janela. E a estúpida aqui estava imaginando o ronco de um volvo prateado com seu (lindo, tesão, bonito e gostosão) dono dentro. Meu Edward. Meu. Pra sempre.
Olhei para trás. Ele estava absurdamente lindo, parado ao lado da janela aberta. Seu cabelo estava levemente bagunçado com a brisa noturna, com uma camiseta grafite contrastando delicadamente com sua pele de porcelana. E no seu rosto, lá estava ele: meu sorriso torto favorito. Como estava humano agora, e ao mesmo tempo sua beleza sobrenatural o denunciava. Devia ser proibido ser tão tentador daquele jeito. Gatão.
- Senti sua falta. - ele me beijou antes que eu pudesse responder alguma coisa. Seus lábios estavam macios e delicados. – e como hoje é meu dia, acho que vou abusar de você o quanto eu quiser – E ele me beijou de novo. As paredes começaram a rodar. Ele estava menos cuidadoso agora: sua língua se movimentava levemente com a minha. Depois ele me soltou (aah!), sentando-se na minha cama, rindo baixinho ao me ver petrificada e sem conseguir mover um dedo. Ele me puxou para ele, e começou a cantarolar a minha canção de ninar no meu ouvido.
E então aconteceu a pior coisa de toda minha vida.
Por que Edward tinha que ser um vampiro? Por que ele tinha que ter todos os sentidos mil vezes mais aguçados do que um humano? Por que ele, mesmo sem precisar respirar, respirava? Todas essas perguntas se uniram em um vermelho vivo no meu rosto, quando ele, em um milésimo de segundo estava o mais longe de mim que o quarto permitia.
“...É um tanto desagradável, ficar sem o olfato.” Ele me dissera uma vez. Me senti uma aberração. Certamente a frase estava errada. Com os olhos inchados de surpresa e terror, Edward olhou para mim e perguntou:
- Bella, você peidou? - Quanto a mim, eu continuei imóvel, completamente incapaz de me mexer, imersa em meu próprio cheiro. Maldito Peixe. Belo presente.